18 novembro 2006

O direito à diferença

“Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia 1998 e professor do Trinity College de Cambridge, queixa-se em um artigo publicado no The New York Times do abuso contido na expressão "choque de civilizações", vulgarizada pelo professor norte-americano Huntington.

Para Amartya Sen, nascido na Índia, é absurdo catalogar os povos assim, porque supõe negar a pluralidade de sinais de identidade no seio de cada sociedade. Qualquer civilização pode conter diversas sociedades e até várias culturas. Em uma civilização convivem diferentes povos, com línguas e religiões plurais e até com sistemas políticos e econômicos antagônicos.

Sem constituir uma civilização, senão um império que não durou mais de dois séculos, o Império Britânico não teve nem unidade territorial, pois se estendia por quatro continentes; unidade de língua, pois falavam-se várias dezenas; unidade religiosa, já que iam do protestantismo ao budismo, islamismo ou hinduísmo; unidade de moeda, nem sequer do padrão-ouro; nem uma única forma política, havia desde monarquias até repúblicas passando por principados, ditaduras militares e teocracias; nem unidade racial, pois entre suas fronteiras podiam se encontrar euro-asiáticos, negros, chineses, mongóis, malaios ou polinésios. Mantinha-os unidos a submissão à autoridade política britânica como vínculo para que a soberania fosse efetiva.

Por isso, nem a Sociedade das Nações nem a ONU puderam ser soberanas, pela incapacidade em "fazer cumprir o mandado".

Amartya Sen parte de um mundo que conhece bem e perante o qual nós, ocidentais, manifestamos uma ignorância altiva e perigosa. Dizer que a Índia é uma civilização hindu pressupõe esquecer que neste subcontinente existem mais muçulmanos do que em qualquer país da terra, excetuando-se a Indonésia.

É impossível compreender a riqueza cultural da Índia sem levar em conta as profundas interações na arte, música, literatura, culinária ou através das concepções religiosas budistas, jainistas, sikhs, parsis, cristãs, muçulmanas, hindus, judaicas, atéias e agnósticas.

Igual simplificação abusiva se encontra na categorização "mundo islâmico". O hindu prêmio Nobel dá o exemplo de dois imperadores muçulmanos da dinastia mongol: Aurangzeb e Akbar que reinaram na Índia. O primeiro era um muçulmano tão intransigente que pretendia converter ao Islã todos os hindus e gravar com impostos a todos os não-muçulmanos. Pelo contrário, Akbar foi um modelo de compreensão e de pluralismo. Sua corte era multi-étnica e havia proclamado que

"ninguém poderia ser perseguido por razões religiosas", já que na variedade religiosa e cultural repousava a vitalidade e riqueza do Império.

O mesmo poderíamos dizer da "civilização ocidental" com seu pretenso espírito de tolerância e de liberdades individuais. Em pleno reinado do imperador Akbar, enquanto este defendia a liberdade religiosa em Agra; por volta de 1590 na Europa, a Inquisição fazia estragos - em nome da religião católica - contra os réus de pensamento protestante, judaico ou humanista.

Em 1600, Giordano Bruno era queimado vivo no Campo dei Fiori, na Roma dos Papas, por ter-se atrevido a sustentar idéias copérnicas que colocavam em dúvida a versão bíblica da Criação. Miguel Servet foi queimado por suas idéias em Genebra por ordem de Calvino. Em 1591, uma mulher escocesa foi queimada viva por usar um analgésico para o parto infringindo o trecho bíblico "parirás com dor". Em 1847, quando James Young Simpson recomendou a analgesia para as dores do parto foi condenado pelos clérigos. Até 1956 o papa Pio XII não admitiu que a Igreja já não se opusesse ao parto sem dor.

A principal esperança de harmonia não repousa na uniformidade, mas no mútuo enriquecimento. Pretender impor nossa civilização a outros povos é uma agressão à pluralidade para perpetuar situações de poder.

O mais triste e empobrecedor é que alguns invocam a divindade em uma imaginária decisão de "povo escolhido" (Israel) ou de "filha predileta da Igreja" (Castela, França, Inglaterra ou Portugal), para em seu nome bendizer agressões, conquistas, cruzadas e todo tipo de violações do direito dos povos a viver conforme suas crenças, suas normas e suas variadas concepções de vida.

Onde não há liberdade, não pode florescer a justiça, nem uma vida com dignidade que valha a pena ser vivida.”
Por José Carlos García Fajardo é professor de Pensamento Político (UCM) e Diretor do CCS
(Traduzido por Viviane Vaz)