15 novembro 2006

Um Assunto Imundo: Política

O fato de chamar a política de assunto imundo justifica-se, pois não são poucas as sujeiras dos políticos. Mas, é preciso que se diga, que a imundície da política é estrutural, não conjuntural: independe do partido político no poder, pois qualquer agremiação política é um germe disseminador de imundície, e compartilha da mesma concepção patologicamente adoentada, que acredita que o poder político é algo bom, apenas mal utilizado pelos outros, quando a política é decorrência de uma falta de opção humana, já que o homem ainda não consegue relacionar senão através da luta dos interesses privados. Com certeza, se buscam as salvações das almas, as suas próprias e a do próximo, não devem busca-la nos obscuro e tortuoso caminho da política, pois é uma escola de corrupção.

Por mais boa vontade que tenham, na medida em que entram no jogo político, jogando segundo suas regras, que nunca se caracterizou por sua ética, pelo contrário, pois na política os fins sempre acabam justificando os meios, libertando a consciência dos políticos “bons” de um trabalho auto crítico, na medida que se justificam alegando defenderem “grandes fins”, que quando não são obtidos, mesmo com todas as coisas ardilosamente tramadas, findam culpando a adversário. E quando se denuncia a falta de ética do “bom” político, esse sempre alega que isso é obra dos inimigos políticos que querem ver sua carreira política acabada, já que segundo ele, seus “grandes fins” sempre legitimam seus baixos meios para obtê-los.

Entretanto, o fato de possuir uma visão partidária, impede os políticos de verem os outros interesses sem ser de forma mecânica e doentia, raciocinando segundo o binômio inimigo ou aliado: como está tramando contra todos os demais, acredita que todos tramam contra ele, e imbuído dessa lógica conspiratória, vive ele assim, o político, conspirando contra os outros.

No fundo, os partidos políticos são entidades profundamente paranóicas, que sempre acham que estão sendo perseguidos ou que os outros tramam contra eles. Portanto, são incapazes de realizar uma autocrítica, já que se dedicam tão somente a criticar o outro e a buscarem culpados para tripudiarem no pobre coitado, como se não fosse o conjunto dos políticos os responsáveis pelos acontecimentos, mas apenas aquele que exerce o executivo. E se não estão fazendo isso, com certeza estão tramando alguma coisa, metidos em reuniões secretas, onde articulam como obterem mais poder e prestígio (de um modo geral através do desprestígio alheio), ou favorecimento para si e seus apadrinhados, ainda que ingenuamente muitos acreditam que estão fazendo tudo isso pelo bem do povo e em nome de todos.

Como em qualquer lugar, a política abriga pessoas boas e más, imbecis e inteligentes, honestos e desonestos. Mas, mesmo as pessoas boas, honestas e inteligentes realizam e contribuem para a sujeira da política, só que de forma inconsciente e ingênua: as pessoas “boas” dão uma certa dignidade “a política”, e com isso contribuem para ofuscar ainda mais a imundície dos políticos.

Antes de qualquer coisa, para se entrar na política é preciso ser um comerciante, pois a política é um grande comércio de interesses, onde se barganham leis, poderes, domínios, divisões territoriais. Falem que buscam o consenso, mas o que ocorre são acordos, onde abrem mão dos princípios em nome das finalidades. É que o político é necessariamente um dissimulador, um forjador de realidades, um ator, representando um papel de mártir do povo, de uma vida voltada para os sacrifícios do povo. O político é necessariamente um mentiroso, que sempre diz estar defendendo no interesse da maioria (sem se preocupar se a maioria está certa, pois não poucas vezes está equivocada) ou de todos; só fala coisas justas publicamente, mas jamais sabemos o que é realmente verdade ou o que é efeito retórico de discurso.

Assim, vias de regra, os piores candidatos são sempre os escolhidos, ainda que de fato nunca haja candidatos bons. Só ruins têm condições e disposição para concorrerem às eleições. O princípio de escolha dos candidatos dentro dos partidos é bem simples: pega-se os mais canalhas e os mais ingênuos. Os primeiros lutam descaradamente pelos interesses mais mesquinhos; os segundos, além de darem uma certa dignidade à política, são facilmente manobráveis, fazendo-os crer que lutam por boas causas humanitárias, quando o que a humanidade precisa é que acabem com as lutas e não pessoas que se disponham a lutar por ela, seja lá por que for.

Alem disso, todo político parece um médico frustrado, pronto a passar um receituário para as patologias nacionais. Mas, se candidatam a médicos das doenças sociais e individuais, acabam se transformando em verdadeiros monstros que tripudiam sobre o pobre doente, receitando regime e sangria para todos. Se todos têm um pouco de médico e monstro, nos políticos isto ocorre em dois momentos distintos: é médico enquanto candidato, depois vira monstro quando eleitos.
Ainda que os políticos e a política coloquem-se como solução dos grandes problemas, são eles de fato o problema. Apropriando-se de legítimos interesses populares, acabam jogando uns contra os outros, e enquanto o povo se mata entre si, não consegue perceber as coisas ardilosas que os políticos fazem, eles fingem governar o desgoverno que eles próprios criaram.

Que teimem em falar em “ciência política”, em “governos racionais”, isso não passa de mais alguns equívocos de cientistas e políticos. Que se possa examinar cientificamente a política, pode-se admitir; não se pode é realiza-la cientificamente, nem se pode erigir uma ciência sobre o particular. Não há no governar, porque ele não se pauta por dados objetivos, mas por necessidades subjetivas. Não segue a lógica, da reflexão científica, nem cede aos argumentos racionais. Seus argumentos não vêm da autoridade de sua sabedoria, mas do autoritarismo do seu poder e da sua força coercitiva, e sua lógica é a do jogo das paixões mundanas dos homens, que se digladiam para ver seus interesses, independentemente da justiça dos interesses, pois consideram justo tudo aquilo que sobreviveu ao combate sobre a justiça: não querem construir o justo, mas impor a “justiça” que massacraram todos aqueles que afirmavam que era injusta.

Governar segue mais a intuição dos artistas do que a racionalidade dos cientistas. Um governante para ser considerado um bom governante, só precisa ser sensível e perceber as insatisfações sociais, e, se não satisfaze-las, fazer, com que as pessoas sintam-se satisfeitas, ou sintam que o governante está preocupado (ainda que nada tenha feito). Antes de tudo, antes de ser bom, deve parecer bom. Deve fazer, com que todos, ou quase todos, considerem-no o maior sofredor, que carrega nas costas as dores de todos. Enfim, o governante é um artista que representa um papel de destaque na novela social; se o governante é o rei, os políticos são sua corte com suas intrigas, e o povo a platéia que paga para ver esse trágico-cômico espetáculo. Existiriam lugares mais interessantes para gastar o dinheiro desse espetáculo.
Velho Abade / Blog: Brasil! Brasil!

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