10 dezembro 2006

O Velho e o Mar / Primeira Parte

“0 velho chamava-se Santiago. Dia após dia, tripulando sua pequena canoa, ia pescar no Gulf Strearn. Mas nos últimos oitenta e quatro dias não apanhara um só peixe. Nos primeiros quarenta levara em sua companhia um rapazinho, para auxiliá-lo. Depois disso, os pais do rapaz, convencidos de que o velho se tornara salao, isto é, azarento da pior espécie, resolveram que o filho fosse trabalhar noutro barco, que trouxera três bons peixes apenas em uma semana. 0 rapaz ficava triste ao ver o velho regressar todos os dias com a canoa vazia e ia sempre ajudá-lo a carregar os rolos de linha, ou o gancho e o arpão, ou ainda a vela que estava enrolada à volta do mastro. A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente.

0 velho pescador era magro e seco e tinha a parte posterior do pescoço vincada de profundas rugas. As manchas escuras que os raios do sol produzem sempre nos mares tropicais, enchiam-lhe o rosto, estendendo-se ao longo dos braços, e suas mãos estavam cobertas de cicatrizes fundas que haviam sido causadas pela fricção das linhas ásperas enganchadas em pesados e enormes peixes. Mas nenhuma destas cicatrizes era recente.
Tudo o que, nele existia era velho, com exceção dos olhos que eram da cor do mar, alegres e indomáveis.

- Santiago, disse-lhe o rapaz quando desciam do banco de areia para onde a canoa fora puxada, eu gostaria de tornar a sair com você. Tenho ganho algum dinheiro.

0 velho ensinara o rapaz a pescar e por isso ele o adorava.
- Não, respondeu-lhe o velho. Você está num barco de sorte. Fique com eles. - Mas lembre-se daquela vez em que passamos mais de oitenta dias sem apanhar coisa alguma e depois pescamos dos grandes, todos os dias, durante três semanas. - Lembro-me muito bem, tomou o velho. E bem sei que no período de má sorte você não me abandonou nem duvidou de mim. - Foi papai que me fez mudar de barco. Sou ainda menor e tenho de lhe obedecer. - Eu sei, concordou o velho. É natural. - Pai não tem muita fé. - Não, tornou a concordar o velho. Mas nós temos, não é verdade? - Sim, afirmou o rapaz. Deixe-me oferecer-lhe uma cerveja na Esplanada, depois levamos estas coisas para casa. Aceita? - Por que não? respondeu o velho. Entre pescadores...

Sentaram-se na Esplanada e alguns pescadores começaram a fazer troça do velho, mas este não se zangou. Outros, os de mais idade, olharam para ele e sentiram-se tristes. Mas não o demonstraram e conversaram, como se nada fosse, sobre as correntes e as profundidades a que tinham descido as suas linhas, sobre o bom tempo e as coisas que tinham visto ou feito durante o dia. Os pescadores que nesse dia foram bem sucedidos tinham chegado e limpado os espadartes, levando-os estendidos ao comprido sobre duas tábuas - dois homens sustentavam a ponta de cada tábua - para o armazém do peixe, onde ficavam à espera de que o transporte frigorífico os levasse para o mercado em Havana. Aqueles que tinham apanhado tubarões carregavam com eles para a fábrica do outro lado da baía, onde eram içados e limpos, os fígados extraídos, as barbatanas cortadas, as peles raspadas e a carne cortada em tiras para salgar.

Quando o vento soprava do nascente a baía era invadida pelo cheiro que vinha da fábrica, hoje, porém, mal se notava o cheiro, pois o vento soprava para norte e depois amainara rapidamente. Por esse motivo, a Esplanada estava muito agradável e batida de sol.

- Santiago, começou o rapaz.
- Que é? perguntou o velho. Tinha o copo na mão e estava a pensar nas suas aventuras de muitos anos atrás.
- Posso sair com o barco para apanhar sardinhas para amanhã?
- Não, vá antes jogar baseball. Eu ainda sei remar e o Rogério pode atirar as redes.
- Mas eu gostaria de ir. Já que não posso ir com você à pesca queria ser-lhe útil de qualquer forma.
- Você pagou-me uma cerveja, replicou o velho. Agora já é um homem.
- Que idade tinha eu quando me levou ao barco pela primeira vez?
- Cinco anos e você por pouco não levou a breca quando icei o peixe antes do tempo e ele ia dando cabo do barco. Lembra-se?
- Lembro-me da cauda do peixe que batia e sacudia o barco todo, da travessa que rangia quase a estalar e do ruído das pancadas que você lhe desferia com o martelo. Lembro-me também de que você me atirou para a proa, onde estavam os rolos molhados de linha, e não posso esquecer-me do barco a estremecer todo e das suas marteladas - até parecia que você estava pondo uma árvore abaixo, e de todo aquele sangue doce salpicando-me. - Lembra-se mesmo de tudo isso ou ter-lhe-ia eu contado mais tarde? - Lembro-me de tudo desde que saímos juntos pela primeira vez.

O velho examinou-o com seus olhos queimados pelo sol, muito carinhosos e confiantes.

- Se você fosse meu filho, levá-lo-ia comigo e desafiaria a má sorte, disse ele. Mas você é o filho do seu pai e da sua mãe e está num barco de sorte. - Posso ir apanhar sardinhas? Sei de um lugar onde é fácil encontrar isca. - Ainda me restam algumas de hoje. Ponho-as numa caixa com sal e servem para amanhã. - Deixe-me ir arranjar isca fresca. - Uma só, disse o velho. As suas esperanças e confiança nunca o tinham abandonado, mas agora estavam arrefecendo como a brisa quando se levanta no ar. - Duas, contraveio o rapaz. - Duas, concordou o velho. Não vai roubá-las, não é? - Roubaria se fosse preciso, respondeu o rapaz. Mas não é preciso. - Obrigado, disse o velho pescador. Era demasiadamente simples para compreender quando alcançara a humildade. Mas sabia que a alcançara e sabia que não era nenhuma vergonha nem representava nenhuma perda do verdadeiro orgulho. - Com esta corrente amanhã vai ser um bom dia, profetizou o velho. - Para que lado vai? perguntou o rapaz. - Para o largo e voltarei para junto da costa quando o vento mudar. Quero sair antes do amanhecer. - Vou ver se consigo que o patrão do meu barco vá também para o largo, disse o rapaz. Assim, se você apanhar qualquer coisa grande de verdade, podemos ir ajudá-lo. - Seu patrão não gosta de ir para muito longe. - Não, concordou o rapaz. Mas irá, se eu vir qualquer coisa que ele não possa ver, tal como uma ave pairando sobre as águas e lhe disser que é um cardume de golfinhos. - Então ele tem a vista assim tão má? - Está quase cego. - É estranho, disse o velho. Ele nunca foi à cata das tartarugas. É isso que dá cabo dos olhos. - Mas você foi à procura das tartarugas durante anos, lá para a Costa do Mosquito, e os seus olhos estão bons. - É que sou um velho muito estranho. - Mas sente-se suficientemente forte para segurar um peixe dos grandes? - Penso que sim. E conheço as manhas de todos eles. - Temos de levar as coisas para casa, lembrou o rapaz. Para eu ter tempo de ir deitar a rede e apanhar as sardinhas.

Foram buscar a tralha do barco. O velho pôs o mastro às costas e o rapaz pegou na caixa de madeira que continha os rolos da dura linha entrelaçada, no gancho e no arpão. A caixa de isca estava escondida na popa da canoa, juntamente com o martelo que servia para abater os peixes maiores quando eram puxados para junto do barco. Ninguém seria capaz de roubar o velho, mas era melhor levar a vela e as linhas mais pesadas para casa, porque a umidade lhes era prejudicial e, embora nenhum habitante da localidade fosse capaz de roubá-lo, o velho pescador pensava que um arpão e um gancho eram tentações desnecessárias para deixar num barco.

Seguiram juntos pela rua em direção à cabana do velho e entraram pela porta que estava sempre aberta. O velho encostou à parede o mastro com as velas enroladas em volta e o rapaz pôs a caixa e as outras coisas no chão. O mastro era quase da altura do único quarto da cabana, que era construída de guano, a resistente madeira das palmeiras-reais. Dentro só havia uma cama, uma mesa, uma cadeira, e um canto no chão sujo, onde se podia cozinhar a carvão. Nas paredes castanhas do duro guano viam-se uma imagem colorida do Sagrado Coração de Jesus e uma outra da Virgem de Cobre. Ambas eram relíquias de sua mulher. Em tempos, houvera na parede uma fotografia da esposa mas ele a tinha tirado porque se sentia muito só ao olhá-la, todos os dias; agora estava escondida numa prateleira, debaixo de sua camisa lavada.

- O que você tem para se comer? perguntou o rapaz. - Uma panela de arroz com peixe. Quer provar? - Não. Comerei em casa. Quer que acenda o fogo? - Não, não é preciso. - Posso levar a rede? - Naturalmente.
Não existia nenhuma rede e o rapaz se lembrava muito bem do dia em que a tinham vendido. Mas esta era uma cena que repetiam todos os dias. Também não havia nenhuma panela de arroz com peixe e o rapaz também sabia disso.

- Oitenta e cinco é um número de sorte, disse o velho. Gostaria de me ver trazer um peixe que pesasse mais de quatrocentos quilos? - Se gostaria! Vou agora preparar a rede par ir apanhar sardinhas; por que não se senta à porta para apanhar sol? - Sim, tenho aqui o jornal de ontem e vou ler as notícias do baseball.

O rapaz não sabia bem se o jornal de ontem também era uma fantasia, mas o velho o tirou de debaixo do colchão.

- Foi o Perico que mo deu no botequim, explicou ele. - Agora tenho de ir às sardinhas. Guardarei juntas, no gelo, as suas e as minhas, e amanhã cedo poderemos separá-las. Depois, quando eu estiver de volta, você me contará o que eles dizem no jornal a respeito do baseball, sim? - Os Yankees não podem perder. - Mas eu tenho um certo receio dos Indians de Cleveland. - Tenha confiança nos Yankees, meu filho. Pense no grande DiMaggio. - Tenho medo dos Tigers de Detroit e dos Indians de Cleveland. - Tome cuidado ou você ainda acabará tendo medo dos Reds de Cincinnati ou de White Sox de Chicago. - Estude os resultados e os palpites, meu velho, e depois me diga quando eu voltar. - Não acha que devíamos comprar um bilhete de loteria com a terminação oitenta e cinco? Amanhã é o octogésimo quinto dia. - Pois sim, podemos comprá-lo, assentiu o rapaz. Mas não seria melhor oitenta e sete, o número do seu grande recorde? - Uma coisa nunca acontece duas vezes. Acha que poderá encontrar um bilhete com a terminação oitenta e cinco? - Posso procurá-lo. - Um bilhete inteiro. Custa dois dólares e meio. Quem é que nos poderia emprestar o dinheiro? - Isso é fácil. Qualquer pessoa me empresta dois dólares e meio. - A mim também me emprestavam. Mas não quero pedir emprestado a ninguém. Primeiro pede-se emprestado. Depois pede-se esmola. - Não se deixe arrebatar, meu velho, acalmou-o o rapaz. Lembre-se de que estamos em setembro. - O mês dos peixes grandes, replicou o velho. Em maio, todos podem ser pescadores. - Agora vou apanhar as sardinhas, disse o rapaz.

Quando ele voltou, mais tarde, o velho Santiago estava dormindo e o sol já começava a baixar no horizonte. O rapaz foi buscar a velha manta da cama e colocou-a sobre os ombros do velho. Eram uns ombros estranhos, ainda poderosos embora muito velhos, e o pescoço também era ainda muito forte. Não se lhe viam tanto as rugas quando estava dormindo assim, com a cabeça descaída para a frente. A sua camisa havia sido remendada tantas vezes que mais se assemelhava a uma vela, e os remendos, sob a ação do sol, tinham-se esbatido em diversos tons. A cabeça do velho era muito velha e, com os olhos fechados, não havia vida no seu rosto. Tinha o jornal estendido nos joelhos e o peso do braço impedia que a brisa da tarde o levasse. Estava descalço.

O rapaz deixou-o ficar como estava e afastou-se, mas, quando voltou, o velho ainda continuava dormindo.

- Acorde, meu velho, disse o rapaz, pondo a mão sobre um dos seus joelhos.
0 velho Santiago abriu os olhos e durante um momento deu a impressão de voltar de algum lugar distante, muito distante. Depois, sorriu.

- 0 que é que você traz aí? perguntou ele. - 0 jantar, respondeu o rapaz. Vamos jantar, - Não tenho fome. - Mas você precisa comer. Não pode ir à pesca sem comer. - Já comi, murmurou o velho, levantando-se e dobrando o jornal. Depois começou a dobrar também a manta. - Ponha a manta nas costas, disse o rapaz. E fique sabendo que, enquanto eu for vivo, você não irá à pesca sem comer. - Então viva muito tempo e trate da sua saúde, redarguiu o velho. E o que é que temos para comer? - Feijão preto com arroz. bananas fritas e um pouco de guisado.

0 rapaz trouxera a comida da Esplanada numa marmita dupla, de alumínio. Trazia também, no bolso, facas, garfos e colheres, com um guardanapo de papel enrolado em volta de cada talher.

- Quem é que lhe deu isto? - Martin, o dono. - Tenho de lhe agradecer. - Eu já lhe agradeci, replicou o rapaz. Você não tem nada que agradecer. - Hei de dar-lhe a carne da barriga de um peixe grande, disse o velho. Já nos fez isto mais de uma vez, não é verdade? - Creio que sim - Então, tenho de lhe dar mais do que a carne da barriga. Tem sido muito bom para nós. - Também mandou duas cervejas. - Eu gosto mais da cerveja de barril. - Bem sei. Mas as que ele mandou são de garrafa, cerveja Hatuey, mas devo levar de volta as garrafas vazias. - Você é muito amável disse o velho. Não será melhor começarmos a comer? - Já lhe tinha dito isso mesmo... respondeu o rapaz suavemente. Não queria abrir a marmita antes de você estar pronto, - Pois agora já estou pronto. Só desejava era ter tempo para me lavar, Onde você poderia lavar-se?, pensou o rapaz. 0 depósito de água da aldeia ficava lá para baixo, duas ruas além, indo pela estrada. Preciso trazer-lhe água para a cabana, sabão, e uma toalha nova, continuou a pensar o rapaz, Por que será que nunca penso nestas coisas? Tenho de lhe arranjar outra camisa, um casaco para o inverno e um sapatos quaisquer, além de outro cobertor.
- 0 guisado está esplêndido, disse o velho. - Fale-me, do baseball, pediu-lhe o rapaz.”
Ernest Hemingway