03 dezembro 2008

CARTA AÇÃO GRIÔ NACIONAL ao Presidente Luis Inácio LULA da Silva

GRIÔS E MESTRES LUTAM PELO RECONHECIMENTO DA TRADIÇÃO ORAL NA EDUCAÇÃO E CULTURA DO POVO BRASILEIRO

“Querido Presidente Lula

A gente quer falar com você de brasileiro para brasileiro, de semeador para semeador. Como disse Mestre Marquinho, mestre capoeira de São Paulo, muita escrita não traz a emoção que a oralidade tem, mas a gente quer falar, nessa carta, com a arte da tradição oral para trazer essa emoção.

Esta carta brotou de um grupo de festa e trabalho da Rede da Ação Griô Nacional durante a TEIA 2008, em Brasília, entre 12 e 16 de novembro, dele participaram a Rede das Culturas Populares, Federação do Congado Mineiro, Rede Memórias do Jongo, Campanha Carimbó Patrimônio Cultural Brasileiro, Brasil Memórias em Rede, Redes de Tradições Marajoaras, folias de São Sebastião e Ladainhas, Rede de Capoeiras, de Parteiras, de país e Mães-de-Santo, de Erveiras, de Jongueiros, Cacuriás, Carimbós, Reizeiros, Cantadores, Tocadores, Contadores de Histórias, Cirandeiros, Maracatus, Cocos, Cavalo Marinho, Artistas de Circo, Teatro de Rua, Teatro de Bonecos, Mamulengueiros, Catireiros, Candomblé, Patorins, Repentistas, Indígenas, Artesãos, Tradições Juninas... muita gente de uma erudição específica, como falou a griô aprendiz Lívia Castro da Bahia, é gente de sabedoria que não se encontra nem será substituída pelos livros de papéis, mas nos livros sempre novos que não precisamos folhear, mas escutar e viver. Gente participante e parceira da rede de pontos de cultura, do programa Cultura Viva ( da Secretaria de Programas e Projetos Culturais - Ministério da Cultura).

Neste grupo de festa e trabalho da Ação Griô Nacional utilizamos a pedagogia griô, um jeito de dialogar, de prosear igual a uma oficina de Mestre Dirceu, congadeiro lá de Minas Gerais. Ele conta que pega umas contazinhas que dá num pé verdinho chamado saboneteira, e vai descascando e imaginando aquelas frutinhas e vai emendando uma por uma, uma por uma, até formar uma corrente de rosário, e cada continha passa a ter um significado. Então a gente foi juntando a prosa de dois em dois, de três em três, de cinco em cinco, até formar a prosa da grande roda, formar a corrente do rosário e da gente cheia de significado. Então essa carta lembra uma corrente de rosário feita por continhas, lembra também uma colcha de retalhos que costura as falas de 80 representantes diretos de mais de 1400 grupos culturais, comunidades e povos tradicionais e de 600 organizações de todos os estados e regiões do nosso país. Esse povo que quer falar com você sobre a criação de leis, programas e projetos de reconhecimento e incentivo à construção de nosso lugar político-cultural, educativo e econômico na sociedade brasileira para o fortalecimento da identidade e ancestralidade de nosso povo.

A gente quer saber o que a gente sabe, a gente quer sair do anonimato diante do Estado. Com o nome de griô, de mestre do saber, de griô aprendiz, de mestre do mundo, de comunidade ou povo tradicional, de tesouro vivo, de patrimônio imaterial e cultural. São muitos nomes. A gente quer e vem saindo do anonimato e, nessa carta, a gente quer marcar na história do Brasil, a história de uma caminhada em uma longa estrada. Como fala Mestre Alcides, de capoeira de são Paulo, essa estrada que não começou agora, a estrada é quem criou a gente, a gente tem 30 anos de capoeira, 50 anos de repentista, 70 anos de parteira, muito mais de 500 anos de oralidade construída, e é com essa estrada que a gente tem que criar as leis e programas federais.

A gente vem estudando as leis estaduais (leis dos estados da Paraíba, Alagoas, da Bahia, do Ceará e do Pernambuco), editais federais ( Ação Griô, Prêmio de Culturas Populares, Programa Mestre do Mundo, dentre outros), programas nacionais e estaduais que estão propondo políticas, algumas para a gente, outras, com e entre a gente. Como conversaram o Manzatti, coordenador do Forum de Culturas Populares Márcio Griô e Líllian Pacheco, coordenadores do Grãos de Luz e Griô e da Ação Griô Nacional, aprendizes, educadores, pesquisadores e militantes da cultura, as leis e programas têm no geral três mecanismos realizados através de editais. Cada mecanismo cria desafios para a gente pensar e reinventar caminhos e políticas:

Mecanismo 1 - o reconhecimento do estado através da concessão de um título, o que facilita a saída do anonimato.
A gente é selecionado pela vivência longínqua em um saber específico, pelo reconhecimento da comunidade e seu entorno, incluindo em alguns casos a parceria com a escola e ongs. E por projetos apresentados. O primeiro desafio é o conflito entre oralidade e escrita na apresentação do projeto, existem editais que cuidam da oralidade na forma de apresentação, através de gravações; outros editais responsabilizam as Ongs, os aprendizes e as escolas da comunidade pela formalização dos projetos e documentos buscando criar redes sociais de base; e outros apóiam os fazedores de cultura a escrever os projetos e se apropriar aos poucos da linguagem. O segundo desafio vivido aqui é o nome que se dá a este título, porque cada canto do país tem uma tradição, uma linguagem, e línguas diferentes. E o terceiro desafio é quem seleciona, quem faz parte das bancas avaliadoras, quem vivência e cria conceito ou pré-conceito para avaliar as tradições do Brasil.

Mecanismo 2 - depois do título vem o incentivo financeiro, ou salário vitalício, ou bolsa de incentivo – no valor médio de um salário mínimo
Um valor que é mínimo, mas que tem grande resultado na qualidade de vida porque prioriza pessoas que vivem na pobreza em comunidades que têm carência na saúde, educação, meios de comunicação, fruto da desigualdade social e da superconcentração de renda. O primeiro desafio aqui é que essa bolsa não pode se configurar como uma aposentadoria, ela precisa animar o fazedor de cultura em uma rede de transmissão oral, em uma família, em uma política de educação e cultura, e alguns editais têm buscado isso. O segundo desafio é bem representado na fala Cristiano Ávila, representante de Manaus “se num tem barro, como o mestre vai continuar a fazer e ensinar a fazer a panela de barro ?”. Então a bolsa ou salário vitalício não podem mesmo ser uma política desintegrada.

Mecanismo 3 – depois do título e do incentivo financeiro, vem a contrapartida do acordo que é a passagem de conhecimento às pessoas da comunidade.
O maior desafio aqui é o cuidado com o processo de passagem de conhecimento tradicional para não torná-lo algo formal, onde o fazedor de cultura é responsabilizado a trabalhar de uma forma sistematizada que pode contradizer com os seus princípios e práticas, ou o seu conhecimento é apropriado de forma indevida pelas instituições de educação e pesquisa. Como Mestre Deusdete fala - A educação formal que temos nos é imposta dissociada da comunidade. A tradição oral é uma maneira de trabalhar com as mãos, com a palavra, com o corpo, com a alma, é um todo trabalhando, é fonte de conhecimento e desenvolvimento. Aprende-se aos poucos ao longo de muito tempo. Existe edital que cria aqui a figura do griô aprendiz, uma pessoa que é do universo da tradição oral e da tradição escrita e que tem se responsabilizado pela mediação entre os tempos, linguagens e pedagogias dos dois universos e entre as gerações. Como diz o mestre Dito de Oxossi, Sacerdote da Nação de matriz africana Mahi Ewe Fon de Pernambuco “ as tradições orais, as tradições de cultura popular são tradições de princípios, sejam eles de matriz africana, ou de qualquer outro segmento, indígenas ou ciganos, é uma beleza a criança passar a entender outra forma de entender.” Existem os parâmetros curriculares nacionais, as leis de educação indígena e educação afro-brasileira, mas ainda é um grande desafio para a maioria dos educadores do país superar preconceitos e a falta de formação étnico-cultural.
Esta carta é um passo entre tantos que a gente vem dando juntos. Neste dia histórico, dia 15 de novembro que a gente comemora a proclamação da república, a gente também celebra a criação consensual da primeira comissão nacional dos griôs e mestres de tradição oral e de cultura popular; e a gente celebra e convoca o governo e a sociedade para um encontro nacional em 2009 e mais 7 encontros da Rede da Ação Griô nacional em parceria com os Fóruns de Culturas Populares e diversas redes para criar, propor e plantar uma lei nacional de iniciativa popular com um desenho de um programa político que possa fortalecer a identidade e ancestralidade do povo brasileiro, através do reconhecimento dos griôs e mestres de tradição oral, dos povos, comunidades e das culturas populares.

Oh ! marinheiro é hora, é hora de trabalhar,
é o ceu, e a terra, e o mar
oh ! marinheiro, olha o balanço do mar.

Cantiga aprendida com Formiga, soldado da Irmandade Nossa Senhora do Rosário que aprendeu com o Capitão Carlos Henrique.

Assinam abaixo 80 representantes da Ação Griô Nacional, 600 delegados de 600 pontos de cultura de todos os estados do Brasil e Rede das Culturas Populares, Federação do Congado Mineiro, Rede Memórias do Jongo, Campanha Carimbó Patrimônio Cultural Brasileiro, Brasil Memórias em Rede, Redes de Tradições Marajoaras, folias de São Sebastião e Ladainhas, Rede de Capoeiras, de Parteiras, de país e Mães-de-Santo, de Erveiras, de Jongueiros, Cacuriás, Carimbós, Reizeiros, Cantadores, Tocadores, Contadores de Histórias, Cirandeiros, Maracatus, Cocos, Cavalo Marinho, Artistas de Circo, Teatro de Rua, Teatro de Bonecos, Mamulengueiros, Catireiros, Candomblé, Patorins, Repentistas, Indígenas, Artesãos, Tradições Juninas e outros grupos de tradição oral e cultura popular.”

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