27 dezembro 2008

Na Grécia, uma revolta anunciada

“Os encapuzados nas ruas de Atenas tiram a mascara de um sistema falido e iluminam o natal com bancos em chamas

Em 6 de dezembro o Estado grego assassinou Alexis Grigoropoulos, de 15 anos com um tiro no coração. Mais uma vítima numa longa lista de estudantes, imigrantes, trabalhadores, pessoas comuns que tiveram a infelicidade de serem jovens, revoltados, desesperados por uma vida nova.

Ao contrário do que o Estado e a maioria dos meios de comunicação hipocritamente alegam, não foi uma questão de falta de treinamento dos policiais gregos que atiram sempre “acidentalmente”. Não foi uma questão de estar no lugar errado, no momento errado. O Estado grego sempre atira no alvo de propósito e com precisão. Às vezes porque, mesmo após três décadas e meia de ditadura militar e seis após a guerra civil que terminou com a derrota da esquerda, a polícia e o Estado continuam carregando uma mentalidade fascista, racista e totalitária, que gerou milhares de vítimas desde a Segunda Guerra Mundial nesta chamada terra da democracia. Às vezes apenas para praticar sua brutalidade, mostrar sua determinação e esclarecer quem é o dono do pedaço. Às vezes só para acalmar a burguesia ameaçada - dentro da sua ilusão de segurança - pela esquerda extra-parlamentar, a juventude rebelde e inconformada, pelos imigrantes famintos, “escuros” ou estranhos demais para esta sociedade conservadora e perdida entre sua realidade Balcânica-oriental e sua vontade de se mostrar ocidental.

Na mesma noite de 6 de dezembro, entre 90 minutos após a notícia ter se espalhado através de fóruns eletrônicos e celulares, centenas de estudantes e trabalhadores saíram nas ruas para protestar contra o assassinato. E nestas duas semanas, diariamente, em todo o país, as ruas das cidades são tomadas pela raiva, pela revolta, mas também pela esperança de mudar a realidade grega. Mais de 300 bancos e dezenas de lojas de empresas nacionais e transnacionais foram destruídas e queimadas, e quase todos os ministérios no centro do capital e os departamentos policias foram atacados.

Os prejuízos econômicos são enormes. A maioria das escolas secundárias e todas as universidades no país são ocupadas por uma juventude que busca uma nova identidade, uma identidade própria e não imposta por um sistema educativo falido, num país que se tornou caro demais para viver depois da introdução do euro. E a polícia grega, após ter acabado seu estoque de quase 5 toneladas de gás lacrimogêneo – cerca de 6 mil bombas - contra os manifestantes, busca desesperadamente novos suplementos junto ao exército israelense e polícia alemã.

A violência desta revolta pegou muitos de surpresa dentro e fora do país, mas a maioria da sociedade grega sabe que o assassinato do jovem era apenas a chama perto de um barril de pólvora. Os estudantes não protestam apenas pela morte do seu colega.

Protestam contra o governo do Kostas Karamanlis, eleito com a bandeira de limpeza da administração pública pela corrupção e nepotismo, mas que se afunda debaixo de novos escândalos da mesma espécie. Protestam porque os investimentos em pesquisa e no sistema de educação pública – que nunca superam 3% do PIB, um dos percentuais mais baixos na zona do euro – são sempre menores do que os gastos militares. Entre os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), fica apenas atrás dos EUA. Protestam porque enquanto os impostos diretos e indiretos para a sociedade aumentam nesta conjuntura de crise financeira, a igreja Ortodoxa grega fica isenta de qualquer imposto, mesmo sendo a maior proprietária de terras no país depois do Estado, sendo uma das maiores investidoras na bolsa de valores de Atenas e no exterior. Além disso, possui dezenas de empresas em paraísos fiscais para lavagem de dinheiro em colaboração com as elites políticas e econômicas do país.

Protestam porque a Grécia é o primeiro país da Europa em desemprego de jovens entre 15 a 24 anos. São 25%, segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). E as perspectivas para o ano que vem são ainda piores.

Protestam porque mesmo sendo bem capacitados e com alto índice de mestres e doutores na faixa etária de 25 a 35 anos, 70% dos jovens profissionais trabalham sem alternativa em algo diferente do que estudaram.

Protestam porque enquanto eles e seus pais se afogam debaixo de dívidas e os juros que aumentam - contrário às diretrizes do Banco Central Europeu e a maioria dos outros países que nesta conjuntura de crise do sistema financeiro diminuíram os juros - o Estado grego decidiu resgatar os bancos privados e assim incentivar o mercado, com um pacote de 28 bilhões de euros de dinheiro público. No mesmo momento o governo ainda tenta achar os 400 milhões de euros previstos para 2009 para o fundo que iria beneficiar alguns dos 20% de cidadãos gregos que hoje vivem abaixo da linha de pobreza. Os jovens protestam na Grécia porque não têm outra escolha.

Apenas o prelúdio

Neste contexto de crise global, os olhos do mundo inteiro estão virados para as ruas de Atenas. Dezenas de manifestações de solidariedade por jovens igualmente desiludidos aconteceram e acontecem da Turquia a Nova Iorque e na maioria das grandes cidades Européias. Ao mesmo tempo governos de vários países, principalmente da Europa, expressaram solidariedade e ofereceram apoio ao governo grego, tremendo que as chamas das ruas de Atenas se espalhe nos seus “barris de pólvora”. O presidente Francês Sarkozy, após ter manifestado sua solidariedade para o primeiro ministro grego, retirou o projeto de lei para a reforma do sistema de educação secundária, temendo que os jovens franceses - “sujem” Paris.

É verdade que as chamas de Atenas podem cruzar as fronteiras. Aliás, muitos dizem que devem. Vivenciamos uma época em que a humanidade nunca enfrentou uma situação como essa. O sistema financeiro, a segurança alimentar e energética, e o clima global no limite de um colapso.

Neste contexto, as elites mundiais mostraram descaradamente suas prioridades, financiando os bancos e a estabilidade do sistema financeiro com U$ 3.000 bilhões até agora – quase o mesmo que a invasão do Iraque têm custado - enquanto as pessoas famintas no mundo alcançaram a marca de um bilhão.

2009 chega com previsões para o aprofundamento da crise em todo o mundo. Os encapuzados jovens da Grécia talvez não possuam propostas concretas para a saída desta crise. Mas definitivamente mostram qual deve ser o primeiro passo, não apenas para a sociedade grega, mas para todos os trabalhadores do mundo. Foi explicito o banner que um grupo de manifestantes levantou em rede nacional após a ocupação da TV estatal, interrompendo a fala do primeiro ministro: “parem de olhar e saiam para as ruas”.
Kostis Damianakis, de Atenas (Grécia) / Brasil de Fato

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