23 dezembro 2008

Seminário Empresarial: discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva

"Excelentíssimo senhor presidente da República francesa, Nicolas Sarkozy, meu caro amigo José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Européia, nosso querido governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, senhoras e senhores ministros, ministros brasileiros que acompanham a minha delegação, ministros franceses que acompanham a delegação do presidente Sarkozy, senhoras e senhores integrantes das delegações da França, da União Européia e do Brasil, senhoras e senhores empresários, amigos da imprensa.

Quero saudar esta reunião de empresários europeus e brasileiros, que acreditam nas oportunidades comerciais de investimentos, reforçadas pela parceria estratégica Brasil-União Européia. Essa iniciativa é particularmente importante, tendo em vista a grave crise que atravessa a economia mundial. Não sucumbimos ao pessimismo como queriam alguns poucos. Nossa resposta à crise tem sido apostar nos investimentos, na expansão do consumo, na defesa dos empregos, no apoio à indústria e à agricultura brasileira.

Guardadas as diferenças entre nossos países, esta também tem sido a posição que o presidente Sarkozy e o presidente Durão Barroso têm defendido para os países europeus. Se persistirmos nessa direção, sairemos mais fortes dessa crise.

Na Assembléia Geral da ONU e na Cúpula do G-20, em Washington, afirmei ser este o momento da política. Precisamos de uma ampla reforma do sistema financeiro internacional, reforçar os mecanismos de controle, a transparência e a representatividade de decisões que afetam toda a humanidade. Muitos não podem continuar pagando pela irresponsabilidade de poucos. A União Européia e o Brasil têm a oportunidade de demonstrar o sentido verdadeiramente estratégico de sua aliança. Tenham certeza de que nós faremos a nossa parte.

Senhoras e senhores, a economia brasileira está hoje mais preparada para enfrentar as turbulências do momento. Temos equilíbrio fiscal, reservas significativas, inflação controlada e perspectivas de crescimento econômico. O Brasil equacionou sua dívida externa. Hoje, é credor internacional líquido, fato impensável alguns anos atrás. Cinco agências de risco nos deram classificação de grau de investimento, reconhecendo a sólida situação da economia e sua atratividade para os investimentos externos. Reduzimos drasticamente a relação de nossa dívida interna em relação ao PIB.

Entre 2003 e 2008, criamos mais de 11 milhões de empregos formais. Houve significativa redução da pobreza e da pobreza extrema. Tudo isso permitiu reduzir a desigualdade e criar um padrão de consumo mais amplo e diversificado. É essa expansão do mercado interno que dá ao Brasil maior margem de manobra em tempos difíceis.

Mas não estamos de braços cruzados. Aumentamos a disponibilidade de crédito e criamos novas linhas, adiamos o recolhimento de impostos, facilitamos o financiamento às exportações, preservamos os programas de investimento do governo, que vão fazer o País sair mais robusto dessa crise.

Os empresários europeus já conhecem o Plano de Aceleração do Crescimento. Quero ressaltar a importância dessa iniciativa para superar os problemas logísticos, que por tantos anos travaram o crescimento sustentado de longo prazo.

Com os R$ 636 bilhões em investimentos em infra-estrutura, previstos até 2010, o Brasil ganha em competitividade e eficiência na economia global. Estou certo de que as empresas européias participarão no PAC para preservar sua liderança como investidoras de ponta na economia brasileira.

Caros amigos e caras amigas, desde 2003, nosso comércio mais do que dobrou. Em 2007, nossas trocas aumentaram 31%, para US$ 67 bilhões. As projeções para 2008 são melhores.

A resposta à crise é redobrar a aposta em nossa parceria. Para isso, é inadiável concluirmos novos acordos de liberalização comercial. Brasil e União Européia devem trabalhar juntos para um desfecho bem-sucedido e no mais curto prazo possível. Seria excelente sinal para a economia mundial e importante ganho para empresários e trabalhadores.

As negociações comerciais do Acordo de Associação Mercosul-União Européia são outro desafio para nossa criatividade e flexibilidade, se quisermos chegar a um entendimento que estimule o comércio e os investimentos. Os avanços na cooperação em vigilância sanitária e nos entendimentos setoriais no setor têxtil são prova do que podemos alcançar juntos.

A Diretiva de Energias Renováveis que a União Européia acaba de adotar contou com comentários de países produtores como o Brasil. É outra demonstração de que podemos construir consensos mesmo em temas controvertidos.

Esperamos, agora, que sua implementação consolide a Europa como um dos grandes mercados para o etanol e para o biodiesel. Ajudará a realizar um objetivo crucial para o Brasil: a criação de um mercado internacional de biocombustíveis limpos e sustentáveis.

Estaremos dando passo fundamental para responder aos desafios interligados das crises econômica e financeira, da mudança do clima, da segurança energética e alimentar. Também criará novas oportunidades de negócios e de cooperação para empresários brasileiros e comunitários no Brasil, na União Européia e em países da América Latina, Caribe, África e Ásia.

Na semana passada, presidi encontro dos líderes dos países da América Latina e do Caribe numa reunião histórica. Hoje, me reúno com o Presidente do Conselho da União Européia e com o Presidente da Comissão. Vamos lançar o Plano de Ação que norteará nossa parceria estratégica.

Apesar das diferenças de formato e de enfoque, esses dois encontros têm um objetivo central em comum. Queremos somar esforços e construir identidades que abram novas avenidas de comércio e de investimentos para nossas regiões.

Esse é o desafio que está posto para os empresários. Cabe-lhes contribuir com parte importante do trabalho que temos pela frente. Por isso, conto com sua determinação e seu otimismo para aproveitar ao máximo este Seminário e as novas oportunidades que se abrem para as relações entre o Brasil e a União Européia.

Meu caro Durão Barroso, meu caro presidente Sarkozy, meus amigos e minhas amigas, não é sempre que nós recebemos o presidente da França e não é sempre que a gente recebe o Durão Barroso, em nome da Comissão Européia. E também não é todo dia que nós recebemos uma quantidade de empresários europeus e brasileiros no Copacabana Palace.

Já que vocês tiveram algumas horas para ver e sentir a beleza do Rio de Janeiro, me permitam pelo menos uns três minutos aqui para falar dessa crise econômica que tanto assustou e assusta as pessoas no mundo.

Não vou entrar em diagnóstico da crise, porque o presidente Sarkozy e eu concordamos quando participamos da reunião do G-20, em Washington. Não vou também aqui dizer o que as pessoas têm que fazer, porque cada um tem que decidir em função da realidade política do seu país, da realidade cultural e da realidade econômica.

A única coisa que eu tenho convicção e certeza, e por isso eu quero dizer para vocês, é que finalmente chegou a hora da política. Eu me lembro, presidente Sarkozy, que em 1990, quando caiu o Muro de Berlim, alguns companheiros aqui no Brasil não gostaram porque eu disse que finalmente a esquerda mundial tinha tempo de pensar outra vez e de ser mais criativa.

Obviamente que eu não estou torcendo para que tenha crise, mas eu penso que essa crise chama a atenção do mundo, dos especialistas para rediscutirem o papel que o Estado nacional tem que exercer na economia. Eu não defendo a idéia do Estado gestor, eu não defendo a idéia do Estado que se intromete na economia, querendo fazer aquilo que é papel próprio de quem entende de administração de empresas.

Mas está provado que o Estado sozinho não resolve o problema de nenhuma nação. Está provado que se o Estado não for um indutor do desenvolvimento, se o Estado não tiver força e mecanismos para controlar a atividade econômica dos seus países, quando acontece uma crise como essa, não tem banco no mundo, não tem grande empresário no mundo que não se volte para a figura do Estado a perguntar: 'O que faremos agora?'

Todos nós sabemos que essa crise é resultado de uma especulação financeira desavergonhada. Todos nós sabemos que o petróleo nunca valeu US$ 150 o barril. Todos nós sabemos que os produtos alimentares não podiam ter subido como subiram no mês de maio e junho passados. Analisando até o estoque mundial com a quantidade de consumo, não tinha parâmetro para que nem o petróleo e nem os alimentos subissem do jeito que subiram.

Qual foi a causa? A causa foi a especulação desses produtos no mercado futuro. Como alguém pode fazer investimentos no mercado futuro sem ter a responsabilidade de pagar in cash uma parte do que está prometendo? Como é que pode? Eu conheço muita gente que trabalha com petróleo, desde a empresa brasileira, a Petrobras, a amigos presidentes de outros países que têm muito petróleo, e todas as vezes que nós perguntávamos: expliquem, pelo amor de Deus, porque o petróleo está a US$ 150 o barril. Ele estava, pouco tempo atrás, a US$ 28. Por que subiu? Só tinha uma resposta: 'os chineses estão consumindo demais, os chineses estão...' Os coitados dos chineses passaram a pagar o pato por uma especulação que estava havendo com o petróleo no mercado futuro. O petróleo agora está a US$ 40, e os chineses continuam consumindo quase a mesma coisa que consumiam quatro meses atrás.

Com os alimentos, a mesma coisa. Onde é que entra o papel do presidente Sarkozy, que foi às ruas pedir votos, que foi convencer pessoas a votarem nele? Onde entra o papel de um presidente do Brasil que foi às ruas pedir votos? Por isso é que eu acho que agora chegou a hora da política. Nós não queremos, e não faz parte da minha formação política, querer cercear a liberdade de ninguém. A única coisa que eu não posso é socializar os prejuízos quando eu não socializei os lucros.

É preciso que a gente assuma a responsabilidade, e eu tenho certeza absoluta, meu caro Durão Barroso, que depois daquela reunião que fizemos em Washington, eu penso que todos os presidentes estão aptos, preparados e conscientes de que o mundo não pode continuar desse jeito.

Aqui no Brasil, sabe Deus o sacrifício que nós fizemos neste país --e os empresários brasileiros sabem o sacrifício que nós fizemos--, sobretudo em 2003, para colocar o Brasil numa relação de destaque na economia mundial. Quando nós ganhamos as eleições, este país tinha uma dívida pública equivalente a 52% do seu Produto Interno Bruto. Hoje essa dívida pública está em apenas 36%, menor do que muitos países do mundo.

Fazemos isso porque sabemos que um país não pode gastar mais do que a sua capacidade de arrecadar. Da mesma forma que não é possível um banco alavancar tantas vezes mais que o seu patrimônio líquido, como os bancos fizeram no caso do subprime.

Talvez se tivesse um concurso para eleger o homem mais otimista do mundo, presidente Sarkozy, eu estaria entre os mais otimistas. Aqui, no Brasil, de vez em quando, eu sou criticado, porque as pessoas acham que eu deveria ir para a televisão chorar, reclamar, dizer que a crise acabou com o país. E eu sou o maior estimulador da retomada do crescimento. Aliás, faço mais propaganda dos produtos brasileiros do que muitos empresários que deveriam defender os seus produtos. Vou para a televisão todos os dias pedir para comprar, pedir para exportar, pedir para importar, porque isso é que toca a roda da economia: o fluxo de produção e de comercialização. É o fluxo de consumo da sociedade que pode tocar a economia.

Faço isso porque acredito que essa crise vai fazer o Brasil sair muito mais forte do que quando entrou nela. Por isso já tomamos tantas medidas e vamos tomar outras. Tantas medidas quantas forem necessárias nós tomaremos, porque eu acho que essa é a oportunidade.

Eu tenho certeza, presidente Sarkozy, que por tudo o que eu tenho lido dos seus discursos na França, por tudo o que eu tenho lido de artigos na imprensa, também muitos países europeus pensam assim. O Estado precisa investir agora o que ele não investiu dez anos atrás. O Estado precisa construir agora o que ele não construiu alguns anos atrás. Os empresários precisam continuar fazendo os seus investimentos, até porque um investimento, uma fábrica que eu começar a construir hoje, não vai começar a produzir amanhã. Ela vai levar dois, três anos para ser produzida.

Nós precisamos trabalhar é com a saída da crise, não mais com a crise. Nós agora precisamos começar a projetar os nossos investimentos para quando essa crise terminar, e aí entra o governo dos Estados Unidos da América do Norte. O presidente Obama vai tomar posse com uma responsabilidade nas costas que poucos presidentes no mundo tomaram posse. Ele vai tomar posse com uma crise que só os Estados Unidos têm mais de 60% da responsabilidade dessa crise. Só nas Bolsas de Valores, as ações perderam US$ 31 trilhões. Só na economia já foram jogados US$ 600 bilhões e ainda a gente não percebe que haja um refluxo.

Eu dizia outro dia: o presidente Obama disse que ia criar 2 milhões e 500 mil empregos até 2011. Este ano, aqui no Brasil, do dia 1º de janeiro ao dia 30 de outubro, nós criamos 2 milhões e 200 mil empregos com carteira profissional assinada. Dois milhões em apenas um ano.

Eu penso que esse é o pensamento do presidente Sarkozy, certamente é o pensamento da Angela Merkel, certamente é o pensamento do Gordon Brown, certamente é o pensamento de todas as pessoas que acreditam que se a gente ficar quieto, não fizer nada e deixar por conta do mercado, essa crise pode se alastrar e trazer graves problemas sociais, convulsões sociais em vários países do mundo.

Portanto, não tem outro jeito. Tenham a certeza de que aqui no Brasil nós iremos fazer o possível e o impossível para que quando essa crise terminar... Primeiro, porque não vamos entrar em recessão. O País vai continuar crescendo. Certamente não crescerá os 6 ou 7% que eu gostaria que crescesse, mas poderá crescer 4%, e vamos trabalhar com isso, apesar de gente dizer que o Brasil vai crescer 2,8%, 3%. Eu quero que os empresários saibam que no governo e na sua equipe econômica, nós iremos trabalhar com a perspectiva de 4%.

Não haverá um único projeto do governo que seja paralisado por conta dessa crise. A gente enfrenta crise é lutando contra ela, a gente enfrenta a crise procurando alternativas, criando novos paradigmas. Se a gente tentar resolver essa crise com o mesmo paradigma monetário que a criou, nós não teremos solução de curto prazo. Portanto, é importante pensar em novos paradigmas.

Eu, aqui no meu discurso, citei que cinco agências colocaram o Brasil como grau de investimento. É uma pena que parte dessas agências quebraram também com a crise, mas a bondade que fizeram com o Brasil está bom, eu aceito e agradeço.

Um abraço e boa sorte."

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
22/12/2008

Nenhum comentário: