24 fevereiro 2009

Quando os bons se calam

Eduardo Guimarães, Cidadania.com

“No último dia 17 de fevereiro, ao ler o editorial criminoso do jornal Folha de São Paulo “Limites a Chávez”, texto venenoso, indigno, mentiroso, que tentou reescrever a história recente do Brasil ao qualificar como “brando” (‘ditabranda’) o regime odioso, assassino e covarde que vigeu neste país entre 1964 e 1985, a primeira coisa que me veio à mente foram as palavras imortais do doutor Martin Luther King:

O que me preocupa não são os gritos dos maus, é o silêncio dos bons

Sempre fui avesso ao maniqueísmo, mas há dois períodos na história recente deste país em que o bem e o mal se estabeleceram em dois lados bem definidos. O primeiro período foi o da ditadura militar que pisoteou esta Pátria por mais de vinte anos, e o segundo é hoje, quando outra ditadura, de mentalidade tão cruel e debochada quanto a anterior, estabeleceu-se de uma forma nunca vista antes.

A ditadura a que me refiro é a da mídia, uma ditadura que tem sido tão perniciosa quanto a anterior, apesar de que, em lugar das torturas, dos estupros, dos assassinatos e da censura que sua antecessora praticou, viola hoje a Nação por meio do último daqueles métodos que acabo de enumerar, o de calar as vozes dissonantes valendo-se do poder econômico que amealhou no período ditatorial explícito.

Não gastarei vosso tempo enumerando os horrores da primeira ou da segunda ditaduras, pois muitos fizeram isso bem melhor do que eu faria. Tampouco relembrarei o que tantos de vocês têm relembrado sobre o papel colaboracionista desempenhado pelo jornal paulista durante os anos de chumbo.

Venho a vocês pedir que reflitam sobre as palavras de Luther King, ainda que muitos achem que, ao fazerem abaixo-assinados, enviarem e-mails, escreverem artigos, estão fazendo o que o ativista do movimento negro americano preconizou décadas atrás.

Não estão. Ou melhor: não estamos. Nossos textos não são o que pediu o líder imortal do movimento negro estadunidense. Ele pediu que combatêssemos o silêncio, e este só pode ser combatido com palavras e ações verdadeiras, corajosas, não as que tomamos no conforto de nossas poltronas, diante de nossos computadores.

Há cerca de um ano e meio – em setembro de 2007 –, através do blog que criei para combater a ditadura midiática, o Cidadania.com, ofereci aos seus leitores a chance de passarmos da inação à reação indo protestar diante da mesma Folha de São Paulo, daquele tentáculo da ditadura vigente que considero o mais perigoso, pois se esconde sob uma máscara democrática e plural, máscara que retirou brevemente ao publicar o editorial em tela, mas que recolocou em seguida no afã de continuar ludibriando a sociedade.

Naquele setembro de 2007, após a convocação do ato público diante da sede do jornal entusiasta da ditadura militar a fim de protestar contra os abusos da mídia e daquele jornal em particular, outros blogs e sites uniram-se ao meu blog e, juntos, conseguimos levar duas centenas de cidadãos para diante da sede da Folha de São Paulo. Foi no dia 15 daquele mês, um sábado, às dez horas da manhã.

Daquele ato público nasceu a ONG Movimento dos Sem Mídia, que atualmente presido e que depois representaria no Ministério Público Federal contra a Folha, a Globo, o Estadão, a Veja e outros tentáculos da ditadura midiocrática por conta da promoção de alarma social no âmbito de uma “epidemia” fictícia de febre amarela que terminou por fazer com que mais gente adoecesse por conta de uso desnecessário e incorreto da vacina contra a moléstia do que por febre amarela propriamente dita, gerando, inclusive, ao menos duas mortes.
Vislumbro novamente vontade dos setores pensantes da sociedade de cobrarem caro do jornal da família Frias a bofetada que este desferiu nos rostos dos torturados, dos assassinados, dos desaparecidos, dos que foram silenciados, intimidados, levados à bancarrota, impedidos de trabalhar, enfim, daqueles para os quais a ditadura foi tudo, menos branda.

No último sábado (21/02), a Folha de São Paulo voltou a debochar do país ao publicar, em sua seção de cartas de leitores, manifestação de alguém que, possivelmente a mando do jornal, tripudiou dos indignados com a absurda “ditabranda” prevendo que, “como sempre”, estes limitar-se-iam a fazer abaixo-assinados, e insinuando que é só isso o que “a esquerda” sabe fazer.

Acho muito pouco os e-mails, os artigos, os abaixo-assinados. Dizer que todo aquele horror, que tantas vidas destroçou com a colaboração inconteste da mesma Folha de São Paulo, foi “brando”, não pode ficar por isso mesmo, ou seja, pelas manifestações escritas e publicadas só na internet. Devemos romper o silêncio e dizer nossa indignação diante daquele tentáculo da ditadura, ao vivo e à cores.

Se, como em setembro de 2007, todos os indignados decidirem transformar sua indignação em reação unindo-se a esta ruptura do silêncio de que falava Luther King, estarei à frente e ao lado dessa reação.

Não precisamos de manifestações de apoio, mas de engajamento. Precisamos que vocês que se indignaram e que não querem silenciar se comprometam a participar do protesto, se preciso adiando viagens à praia, consultas médicas, festa na escola dos filhos, visita a parentes no interior, seja lá o que for, e que se engajem na dura missão de convencer outros a ir consigo.
Podem usar este texto, podem escrever os vossos, podem fazer como quiserem, contanto que façam.

Durante esta semana, manterei este texto em evidência no blog Cidadania (http://edu.guim.blog.uol.com.br), de forma que, como em 2007 e em 2008 (quando outros atos públicos foram convocados, como o que ocorreu no Masp, em São Paulo, para protestar contra o presidente do STF, Gilmar Mendes), viabilize a organização dos manifestantes até que outros blogs e sites unam-se a nós.

Senti-me na obrigação de fazer este chamamento, este alerta. Posso não ser atendido desta vez, como já aconteceu em outras, mas jamais me acusarei, diante do espelho, de silenciar enquanto os artífices da neo ditadura gritam.

Se quiserem garantir o mesmo para si, conto com vossos comentários aqui se comprometendo a participarem e deixando vossos e-mails (que garanto que não serão divulgados) para contato, e acompanhando, através do blog Cidadania – ou em outros que porventura adiram –, as notícias sobre data e hora de ato público de repúdio diante da sede da Folha de São Paulo, data e hora que serão definidas durante os próximos dias.
Não silenciem. Dêem sentido aos vossos protestos indignados. Assumam vossa responsabilidade de Cidadãos. Vosso país precisa de vocês.”
Blog Cidadania.com

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