04 maio 2009

A Folha também não entendeu o espírito da coisa

A Charge Online

“A Folha acaba de proibir a gente de mostrar as charges do Angeli, do Glauco e do Jean. Exigem o pagamento de "royalties" (sic. É a crise?).

Não percebem que a nossa galeria é uma atividade cultural, sem fins lucrativos, de que todos participam voluntariamente, visando produzir uma referência para o próprio trabalho, e um importante registro da nossa história para a cultura.

Nosso site é uma exposição virtual. Não estamos republicando nada, estamos apenas fazendo uma citação. Mostrando o que cada chargista produz, evidentemente no jornal em que trabalha (com os devidos créditos e link).

Esse serviço é disponibilizado gratuitamente.
O que nos move não é o dinheiro. E nem temos ou movimentamos dinheiro. Ninguém recebe nada para participar, nem eu sou pago por organizar e manter.
Fazer o que, né?







Apesar da antipática medida do jornal, não vamos deixar o excelente trabalho do Angeli, do Glauco e do Jean passar em branco.

Clique aqui para ver as charges deles direto no site da Folha.
Depois é só fechar a janela para voltar.

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Algumas opiniões sobre o nosso trabalho:

José Simão (colunista da Folha):
"Parabéns pelo site.É delicioso e de utilidade pública."
Ziraldo:
"Acho que a Charge Online é o começo de um caminho que vai dar num universo ainda inusitado. No Cyberespaço, o Mariano está sendo o nosso Moisés."

Luis Fernando Veríssimo:
"Grande idéia. A Charge Online é ótima para todo mundo. É uma idéia que já nasceu indispensável."

Anelise Pacheco (Ex-Diretora do Museu da República):
"Considero o projeto Charge Online da mais alta relevância e significação para a memória de nosso país. Iniciativas deste tipo só vêm a enriquecer e dignificar nossa cultura."

Millôr Fernandes:
"Nas três últimas décadas, de forma crescente, reconheceu-se a importância do humor no jornalismo, de modo geral, no setor social e político em particular. Não há qualquer momento, nos últimos trinta anos de nossa vida pública, em que os jornalistas especializados no setor não tenham tido participação decisiva.

E, até, curiosamente, reconhecida. Por isso aplaudo com entusiasmo - e acho de enorme importância cultural - a idéia de Mariano (Júlio Mariano) de criar um site na Internet, onde se encontre todas as charges publicadas diariamente em nossos jornais.

Para seu projeto, Mariano, esplêndido artista gráfico, e tinhoso organizador, necessita apenas de natural amparo econômico, pois a insanidade para a realização ele já nasceu com ela. Foi nele que George Bernard Shaw pensou quando disse: "Todo homem sensato aceita o mundo como ele é. Só os loucos tentam melhorar o mundo". Portanto a realização de qualquer projeto depende dos loucos. Dou fé."

Porque existe esse site

Fazemos esse trabalho desde os primórdios da internet, quando esta ainda não era dominada pelo interesse econômico, e todos acreditávamos numa alternativa para democratizar a informação, baseada na solidariedade e na colaboração voluntária dos participantes. Essa era a filosofia original da rede, cujos entusiatas e principais responsáveis pela sua difusão universal eram os criadores do software livre, que produziram o Linux, o PHP, o Open Office, e hoje mantêm disponíveis praticamente todas as alternativas para o uso democrático da tecnologia da informação.

Nunca visamos nem ganhamos dinheiro com isso. Muito pelo contrário, há 14 anos tenho gasto do meu próprio bolso para manter nosso site no ar, fora o tempo disponibilizado e a dedicação. Minha única e suficiente gratificação é a certeza de que estou prestando um serviço relevante à nossa cultura, e reconhecidamente importante para os colegas cartunistas de todo o país.
Porque não rola dinheiro
Com o aparecimento dos grandes portais (UOL, Globo.com, Terra, IG, etc.), recebi boas propostas financeiras, mas tive que recusá-las pois a filiação a qualquer um deles implicava a exclusão dos chargistas cujos jornais pertenciam aos outros. Ou seja, para "vender" o site para o UOL, teria que excluir o chargista do Globo, do JB que é do Terra, e do O Dia, que é do IG.

Igualmente tive que abdicar de inserir publicidade convencional, por falta, como pessoa física, de estrutura e talento para administrar contratos, contabilidade, essas coisas.
Os anúncios do Google que há no site geram uma "receita" ridícula (eis o relatório dos últimos meses) que não dá nem para cobrir as despesas com provedor de acesso.

Formatei um projeto que seria a solução, com a criação de um museu virtual e a sua institucionalização através de um patrocínio da cultura oficial, onde essa questão da remuneração dos participantes seria equacionada. O projeto está aprovado pelo Ministério da Cultura, mas o patrocínio até hoje ainda não aconteceu (desconfio que por falta de filiação partidária, que não é da minha índole).

Até que gostaria, mas não tenho como pagar a ninguém aqui (pra começar, a mim mesmo, né). Todos compreendem, e participam generosa e espontaneamente, do Oiapoque ao Xuí. Porque percebem a importância de ter essa referência e da unidade no relacionamento entre os cartunistas que ela proporciona.

Mas de vez em quando alguém, imbuído de obtuso oportunismo comercial, ameaça desmoronar esse trabalho de integração, brandindo com os direitos que nós sempre fomos os primeiros a defender (Sim: eu fiz parte da comissão de cartunistas, encabeçada pelo Henfil, que lutou em Brasília, em 1973, pela aprovação da Lei de Direitos autorais, modificada depois pelo Governo Fernando Henrique em 1998). Mantemos um tópico permanente em nosso fórum com informações sobre os direitos autorais, e sempre procuramos orientar no sentido de defender os direitos dos cartunistas. Isso é tão claro entre nós, que nunca nos preocupamos em formalizar uma autorização dos participantes, além da autorização verbal, para nós suficiente entre pessoas de bem que têm tão óbvios interesses em comum.

Mais argumentação, e um pouco de desabafo

Em meados de 2003, uma parte de nosso acervo integrou a exposição "Traço, Humor e Cia.", realizada na FAAP, em S. Paulo, sob a curadoria de Denise Mattar, e com o co-patrocínio do UOL. Com o título de "Cyber Humor", instalamos na exposição uma sala com oito computadores, nos quais os visitantes podiam consultar uma coletânea de charges do nosso arquivo, além de acessarem diretamente o site com as charges do dia, através de conexão disponibilizada pelo UOL.

Não bastasse a ligação empresarial entre o UOL e a Folha de S. Paulo, na ocasião tanto a exposição como a nossa participação nela foram amplamente divulgados pelo jornal (e por toda a mídia da cidade). Estranho, portanto, que só agora a Folha manifeste sua proibição, como se tivesse, de repente, descoberto a existência do site.

Tanto o Angeli como o Glauco me disseram, anos atrás, que o jornal os havia sondado sobre as suas charges estarem sendo exibidas aqui, e eles afirmaram que estavam cientes, concordavam e era de seu agrado participar (afirmação reiterada agora, por telefone). Será que dessa vez alguém se deu ao trabalho de consultá-los novamente? Afinal, eles são co-detentores dos alegados direitos patrimoniais do autor, e integralmente detentores dos direitos morais do autor (Tit III, Cap II, LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998).”

Um comentário:

Israel disse...

Legal a matéria!