21 julho 2011

O medo que não ousava dizer o nome

Do escândalo dos grampos pelos tabloides britânicos surge algo positivo: o bom jornalismo expôs o pior e a maré virou contra Murdoch

Timothy Garton Ash, O Estado de S.Paulo

O drama da Grã-Bretanha penetrou até na carapaça de egocentrismo americano. O lendário repórter Carl Bernstein o compara a Watergate. Na TV, Hugh Grant conclama os americanos a acordarem para a influência perniciosa de Rupert Murdoch em sua mídia. O senador John D. Rockefeller pede uma investigação das atividades da companhia controladora de Murdoch, News Corp., preocupado com a possibilidade de grampo de telefones americanos. Se for verificado que parentes das vítimas do 11/9 foram visadas, como sugeriu o parlamentar britânico Tom Watson nos questionamentos dessa semana ao premiê na Câmara dos Comuns, esta não será mais apenas uma história estrangeira. Só na Fox News, que pertence a Murdoch, é como se nada disso houvesse realmente acontecido. Um clipe do Fox News Watch mostra os comentaristas brincando com a única história que eles não vão discutir. Vigilância da notícia, com certeza...

Mas o que isso tudo significa? "Uma espécie de primavera britânica está a caminho", escreve o colunista de mídia David Carr no New York Times. "A democracia, ajudada pela luz do sol, brotou na Grã-Bretanha." Hipérbole, é claro, mas ele tem alguma razão.
Eu colocaria a coisa da seguinte maneira: a debacle de Murdoch revela uma doença que vem obstruindo lentamente o coração do Estado britânico nos últimos 30 anos. É o enfarte que previne a pessoa que ela está doente, mas também lhe dá a chance de sair mais saudável do que estava. A causa fundamental dessa doença britânica tem sido o poder exacerbado, implacável e fora de controle da mídia; seu principal sintoma é o medo.

A conversa sobre uma primavera britânica por analogia com a árabe é obviamente uma licença poética. Comparada com a maioria dos outros lugares do mundo, a Grã-Bretanha é um país livre. De muitas maneiras, é um país melhor agora do que quando Murdoch comprou The Times (of London, como os jornais americanos sentem necessário acrescentar) em 1981. Mas no alto da vida pública britânica circulam homens e mulheres com pequenos pingentes de medo nos corações, e o medo é inimigo da liberdade.

Esse era um medo que não ousava dizer o seu nome; uma covardia autocomplacente que se ocultava em silêncio, eufemismo e desculpa. Intimamente, políticos, consultores de imagem, relações públicas, figuras públicas e, agora se sabe, até quadros superiores da polícia disseram a si mesmos: não ataque Murdoch. Jamais vá contra os tabloides. Murdoch & Co. usaram intromissões vergonhosas, inescrupulosas e ilegais na privacidade tanto para vender jornais, excitando um público faminto por celebridades com detalhes íntimos, como para angariar influência política.

Mesmo se os tabloides não fossem atrás de você, a ameaça estava sempre presente, contudo. Na Rússia, eles chamam isso de kompromat - material comprometedor, pronto para ser usado se a pessoa sair muito da linha. Agora sabemos que os grampos e os grampeadores não se detiveram diante de ninguém nem de nada. A família real, famílias de soldados britânicos mortos em ação, crianças sequestradas - todos foram alvo de intromissão e exposição.
O poder arrogante da mídia moldou a política britânica de maneiras importantes. Contemplando as ruínas da tentativa bem-intencionada de Tony Blair de resolver a crônica esquizofrenia da Grã-Bretanha sobre seu lugar na União Europeia, tentativa destruída pela imprensa eurocética do país, certa vez concluí que Rupert Murdoch era o segundo homem mais poderoso na Grã-Bretanha. Mas, se a medida final de poder relativo é "quem tem mais medo de quem", então seria o caso de dizer que Murdoch foi - no sentido estrito, básico - mais poderoso que os últimos três premiês da Grã-Bretanha. Eles tinham mais medo dele do que ele deles.

Considerem as evidências. Blair vira seu antecessor no cargo, John Major, e um líder trabalhista, Neil Kinnock, serem destruídos por uma imprensa hostil. Ele aprendeu a lição. Cortejou o mais que pôde esses barões da imprensa. Só quando estava prestes a deixar o cargo, após dez anos, ousou denunciar a mídia britânica por se comportar "como uma besta feroz".

Na semana retrasada, soubemos que o sucessor de Blair como primeiro-ministro, Gordon Brown, acredita que registros médicos, bancários e, talvez, fiscais de sua família foram invadidos. Brown conta que foi levado às lágrimas quando Rebekah Wade, então editora do Sun, outro tabloide de Murdoch, lhe telefonou para dizer que o jornal ia revelar que Fraser, filho de Brown de 4 anos, tinha fibrose cística. Apesar disso, alguns anos depois Brown foi ao casamento de Rebekah - que, no momento em que isto é escrito, é Rebekah Brooks, ex-braço direito de Murdoch na News International, o ramo britânico da News Corp. A Feiticeira Morgana do jornalismo britânico era simplesmente poderosa demais para um primeiro-ministro em busca de reeleição esnobar.

David Cameron superou Blair na paparicação aos barões da imprensa em geral e de Murdoch em particular. Pior, ele contratou Andy Coulson, ex-editor do News of the World, como seu assessor de comunicações. Não me lembro de ter encontrado algum jornalista britânico que acreditasse que o ex-editor fosse tão inocentemente desinformado, como alega, sobre o que seus repórteres estavam para fazer. Mas Cameron ignorou todas as advertências.
O mais chocante foi a polícia metropolitana de Londres ter engavetado uma investigação que devia ter feito com o maior empenho. Ela não contou a milhares de pessoas, cujos nomes apareceram nas anotações de um detetive particular usadas pelo News of the World, que seus telefones tinham sido grampeados. Somente uma tenaz reportagem investigativa do Guardian e do New York Times forçou a reabertura da investigação policial.

O primeiro-ministro Cameron agora promete um inquérito público, presidido por um juiz conceituado. Talvez a coisa mais importante que ele terá de determinar é por que a polícia agiu como agiu. De novo, a explicação mais provável se resume a medo. A polícia tinha medo de pôr em risco sua confortável relação com os jornais de Murdoch, que a ajudaram em seus inquéritos e a elogiavam pelos esforços de combate à criminalidade. Alguns policiais eram pagos pela imprensa de Murdoch. Autoridades de peso agora dizem que seus próprios telefones foram grampeados. Na falta de evidências fortes em contrário, a única conclusão razoável é que a polícia temia ser malhada, em vez de incensada, pela besta feroz. De modo que ela também dobrou os joelhos.

Só nos falta descobrir que um juiz conceituado foi espionado, vencido ou intimidado. Seguramente que não, gritamos. Isso não! Mas quantas vezes antes não acreditamos ter chegado ao fundo e depois ouvimos batidas vindas de baixo?

Entretanto, mesmo que surjam revelações ainda piores do passado, o futuro parece mais luminoso. O melhor do jornalismo britânico expôs o pior. No Parlamento, a maré virou. Líderes partidários e parlamentares comuns estão, enfim, reafirmando a supremacia de políticos eleitos sobre barões da mídia não eleitos. A barreira do medo foi vencida.

Desse atoleiro pútrido deveria surgir todo um novo arranjo: no equilíbrio entre política, mídia, polícia e lei; na autorregulação da imprensa; e na prática do jornalismo. O perigo é que, passada a indignação inicial, a Grã-Bretanha novamente se acomode com meias medidas, meio implementadas, como já ocorreu com o impulso de reforma constitucional que decorreu dos escândalo das despesas parlamentares. Por enquanto, porém, uma das crises mais importantes do sistema político britânico em 30 anos criou uma oportunidade. Neste outono, voltarei a uma Grã-Bretanha levemente mais livre.”
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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