“Srs. Diretores da Rede Globo
Causa profunda surpresa, indignação e
perplexidade assistir a um programa de vossa emissora em que jornalistas,
comentaristas e palpiteiros assumam a defesa explícita da prática de
assassinatos como meio válido de fazer política. Isso foi feito abertamente, no
dia 15.01.2012, por Diogo Mainardi e Caio Blinder, ambos empregados da Rede
Globo (o trecho em questão pode ser acessado pelo link:
Depois de fazer brincadeiras de gosto
duvidoso sobre sua suposta condição de agente do Mossad (serviço secreto
israelense), Caio Blinder alegou que os cientistas que trabalham no programa
nuclear iraniano são empregados de um "estado terrorista", que
"viola as resoluções da ONU" e que por isso o seu assassinato não constituiria
um ato terrorista, mas sim um ato legítimo de defesa contra o terrorismo.
Trata-se, óbvio, de uma lógica primária
erudimentar, com a qual Mainardi concordou integralmente. Parece não ocorrer a
ambos o fato de que o Estado de Israel é liderança mundial quando se trata em
violar as resoluções da ONU, e que é acusado de prática de terrorismo pela
imensa maioria dos países-membros da entidade. Será que Caio Blinder defende,
então, o assassinato seletivo de cientistas que trabalham no programa nuclear
israelense (jamais oficializado, jamais reconhecido mas amplamente conhecido e
documentado)?Ambos - o "agen te do Mossad" Caio Blinder e Diogo
Mainardi – se associam ao evangelista fundamentalista estadunidense Pat
Robertson, que, em abril de 2005, defendeu em rede nacional de televisão, com
"argumentos" semelhantes, o assassinato do presidente venezuelano
Hugo Chávez, provocando comentários constrangidos da Casa Branca.
Ao divulgar a defesa da prática do
assassinato como meio de fazer política, a Rede Globo dá as mãos ao
fundamentalismo - não importa se de natureza religiosa ou ideológica - e abre
um precedente muito perigoso no Brasil. Isso é inaceitável. Atenção: não
defendemos, aqui, qualquer tipo de censura, nem queremos restringir a liberdade
de expressão. Não se trata de desqualificar ideias ou conceitos explicitados
por vossos funcionários.O que está em discussão não são apenas ideias.
Não são as opiniões de quem quer que seja
sobre o programa nuclear iraniano (ou israelense, ou estadunidense...), mas sim
o direi to que tem uma emissora de levar ao ar a defesa da prática do
assassinato, ainda mais feita por articulistas marcadamente preconceituosos e
racistas. Em abril de 2011, o mesmo "agente do Mossad" Caio Blinder
qualificou como "piranha" a rainha Rainha da Jordânia, estendendo por
meio dela o insulto às mulheres islâmicas.
Mainardi é pródigo em insultos, não apenas
contra o Islã mas também contra o povobrasileiro.Se uma emissora do porte da
Globo dá abrigo a tais absurdos, mais tarde não poderá se lamentar quando
outros começarem a defender, entre outras coisas, a legitimidade de se plantar
bombas contra instalações de vossa emissora por quaisquer motivos, reais ou
imaginários - por exemplo, como forma de represália pelas íntimas relações
mantidas com a ditadura militar no passado recente, pela prática de ataques
racistas contra o Islã e o mundo árabe, ou ainda pelos ataques contumazes aos
movimentos sociais brasileiros e latino-americanos.
Manifestações como essas do "agente do
Mossad" Caio Blinder e Diogo Mainardi ferem as normas mais elementares da
convivência civilizada. Esperamos que a Rede Globo se retrate publicamente,
para dizer o mínimo, tomando distância de mais essa demonstração racista de
barbárie. Agradecemos a atenção.
Assinam os representantes e instituições:
- Hamilton Otavio de Souza - Editor Chefe
da Revista Caros Amigos
- José Arbex Jr. - Chefe do Departamento de
Jornalismo da PUC-SP
- Fabio Bosco - Central Sindical e Popular
- Francisco Miraglia Neto - Vice-Presidente
Regional do ANDES-SN
- Reginaldo M. Nasser - Coordenador do
Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da PUC-SP
- Marco Weisheimer - Editor da Carta Maior
- Socorro Gomes - Presidente do Centro
Brasileiro para a Paz
- Soraya Misleh - Diretora de Imprensa do
Instituto da Cultura Árabe
- Soraya Smaili - Vice-Presidente da
Associação dos Docentes da UNIFESP
- Boris Vargaftig - Professor Titular da
USP, membro da Academia Brasileira de Ciências
- Isabelle Somma - jornalista e doutoranda
de Historia Social da USP.
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